O ano é 1996, os primeiros grandes provedores ainda começavam a se instalar no Brasil e Gilberto Gil prometia , nos versos de sua canção, aproveitar a vazante da infomaré. A canção é "Pela internet", um dialogo hightech com "Pelo telefone", ancestral samba de Mauro de Almeida.
Mas, exceto por canções como essa e por estratégias razoáveis de marketing digital, os medalhões da música popular brasileira viram uma década de evoluções na internet passar ao largo, sem se aventurar nesse infomar. Em 2008, Caetano Veloso lançava, em parceria com o antropólogo Hermano Vianna, o extinto blog Obra em Progresso. A experiência, a luz das pesquisas de Carla Jung Rocha, contribuía para o "nascimento de uma verdadeira subjetividade de massas, que repousa sobre o contágio afetivo, sobre a partilha dos sentimentos e sobre a participação nas emoções comuns".
Esse excerto só chegou a mim anos depois, mas é descrição clara da sensação que experimentei, à época com 16 anos, ao ver meu monstro sagrado favorito descortinar suas opiniões sobre música, política ou coisa alguma em textos quase que diários. Conhecer Caetano, pouco depois, não teve tanto potencial de desconstrução de mitos, quanto participar de seus diálogos com os leitores do Obra em Progresso. (*)
Obra em conjunto - Um grupo de 20 pessoas mais assíduas tecia uma curiosa intimidade com o artista, que comentava tudo de madeira muito informal. Disso nascia o coletivo "pessoal do blog", pessoal esse a quem Caetano agradeceu a construção de muitas canções em muitos shows. Em dezembro de 2008, para incrementar as participações no blog, Caetano promoveu uma eleição entre duas interpretações feitas por ele para o samba de João Bosco e Aldir Blanc "Incompatibilidade de gênios". A mais votada foi incluída no álbum Zii & Zie, lançado no inicio do ano seguinte.
Juntos e online - 2011 já ia pela metade quando o Projeto Bastidores foi posto na rede - a proposta era promover, via internet, a pré-venda do novo disco de Chico Buarque, que só chegaria às lojas um mês depois. Ao efetuar a compra no site oficial do projeto, o cliente recebia uma senha personalizada que lhe dava direito de assistir, em streaming, o lançamento da primeira música de trabalho do álbum.
Durante os 30 dias entre o início das vendagens e o lançamento oficial, a página virtual revelava aos poucos mais informações sobre o CD, como a capa e o restante do repertório, cativando o espectador ao alimentar, justamente, suas expectativas. Vamos deixar que Chico explique a estratégia:
O formato já vinha sendo bastante explorado lá fora: no mesmo ano, o Foo Fighters lançou suas faixas em doses homeopáticas na rede, os Strokes soltaram primeiro para um grupo seleto de fãs suas canções inéditas e o Radiohead, pioneiro em estratégias de publicidade virtual, disponibilizou "The king of limbs" gratuitamente como uma isca para o material especial que sairia depois. Apesar de não entender bem os caminhos, Chico Buarque chegou longe nesse maré - 15 mil visitantes bateram ponto no site quando um dueto ao vivo com João Bosco foi anunciado. Tais experiências e seus resultados profícuos viraram o jogo da internet-bicho-papão x Indústria Fonográfica.
Nenhum comentário :
Postar um comentário